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The Decadente

The Decadente

31.01.2012

No restaurante com o nome menos pretensioso da cidade, Jaime Abreu encontrou uma picanha com personalidade. E fez uma rima.

Tenho um fascínio intrincado por nomes de restaurante. Gosto de esmiuçá-los, perceber-lhes as origens. Conforta-me saber que o Eleven é Eleven porque tem onze sócios. Que o Ramiro era de um Ramiro. Ou que Gambrinus era o rei flamengo patrono dos cervejeiros. Por isso, mal me serviram o Q'Houver - piada gasta, bem sei, mas estava na ementa - deste The Decadente, aproveitei para reflectir sobre o curioso nome do restaurante. Quem janta sozinho tem de se entreter com alguma coisa.

Decadente é decadente, principalmente em 2012. Juntar-lhe um The, não o torna mais chique, apenas mais difícil de dizer. Se a pronúncia não for cuidada, facilmente se resvala para a gaguez. The Decadente. De decadente. Não percebo. E nem o decadentismo é argumento: Baudelaire não seria tipo para abrir, e muito menos dar nome, a um restaurante.

Estava quase a concluir a divagação quando casei o último naco da excelente manteiga de ervas com o pedaço de côdea de Pão de Mafra (do verdadeiro) que me restava. Fiquei triste e perdi-me no raciocínio. Bem que podiam ter posto mais uma fatia de pão. Ainda assim, por 1 euro, este The Decadente sabe receber. E bem.

Para prato principal pedi o auto-intitulado melhor bife do Miradouro de São Pedro de Alcântara. Dizer que x é o melhor de y é uma manobra de marketing que comigo resulta sempre. Sinto-me desafiado e caio na armadilha. Aqui, contudo, tive sorte: o bife confirmou o estatuto. Convenhamos, não era difícil. Com uma casa de hambúrgueres rápidos e um sushinês na porta ao lado, a competição não é propriamente de primeira linha.

O bife, de picanha, veio alto e sangrento, no ponto exacto. O ovo, de longa cozedura, teria beneficiado com mais tempo de cozinha, porque a clara veio demasiado gelatinosa. Já as batatas caseiras fizeram-me lembrar as mulheres da minha vida: poucas mas boas. Um cheesecake de queijo da Serra foi a despedida perfeita do The Decadente. O queijo, muito cremoso, a ligar de forma bem original com uma gelatina de tomate. Tão perfeita a despedida que em vez de um adeus, como nos filmes, a transformei num até já.

Sim, voltei ao The Decadente uns dias depois. Não resisti. Voltei e pude confirmar duas coisas. Primeira: o restaurante, que enquanto espaço é muito agradável numa óptica trendicional (não é gralha, é jaimismo), consegue ter um ambiente à altura mesmo a uma terça-feira com o IVA a 23%. Segunda: o chefe não sabe fazer só bifes. Comi um óptimo bacalhau, gelatinoso e lascante, com uma infusão criativa de mel e amêndoas, escoltado por batatas bravas (que não são as do Arola mas não deslustram). Para sobremesa pedi um gelado de três chocolates. Sem molhos nem coberturas, porque quando o chocolate é bom não há que inventar.

Resumindo: nesta gama de preços (15 euros-20 euros por pessoa, com menu de almoço, que não experimentei, por 10 euros) o The Decadente é do melhor que há na cidade. Os espaços (no plural para incluir o pequeno bar de entrada) convidam, a cozinha é muito sólida e o atendimento insere-se na nova boa tradição da cidade, com sorrisos, simpatia e uma proximidade que não soa forçada nem invasiva. Decadente, portanto, só de nome.

 
The Independente Hostel & Suites
Morada: Rua de São Pedro de Alcântara, 81. 
Telefone: 213 461 381.
Horário: Segunda a Sexta 12h00-15h00; Segunda a Domingo 20h00-23h00 (Quinta, Sexta e Sábado cozinha até à 00h00).

Texto publicado na Revista TimeOut/Lisboa (23 de janeiro de 2012)

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