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No ponto Bistrô

Artigo de Revista TimeOut

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No ponto Bistrô

14.02.2012

No bistrô do Bairro Azul, Jaime Abreu percebeu que a água de um oásis pode não matar a sede.

Bairro Azul lembra-me sempre verão Azul. E menino azul. Mas no Bairro Azul não se veem doenças raras nem pescadores a tocar acordeão. Aliás, no Bairro Azul não se vê quase nada, para além de uns exemplares arquitetónicos que lhe denunciam o passado burguês salazarista.

É, por isso, aceitável dizer-se que o Bairro Azul é um deserto. Porque é. E, como bom deserto que é, tem um oásis. Sem palmeiras nem cascatas mas com um menu executivo de almoço por 10 euros.

A primeira impressão é a de uma boa relação quantidade/preço. A nota rosada paga couvert, sopa, prato, bebida, sobremesa, café e o sorriso de quem serve. No entanto, como gostam de dizer os sexólogos, quantidade não é qualidade. Perdoem-me o chavão, mas encaixa aqui que nem uma estante sueca.

A sopa de legumes, insípida, não me convenceu. O prato, uma posta de salmão grelhada com batatas e brócolos cozidos conseguiu entusiasmar-me e desiludir-me em questão de segundos. O peixe, bem temperado, estava húmido e saboroso. Mas tanto as batatas como os brócolos vieram pouco cozinhados, a ranger ao dente. Para sobremesa, escolhi um brownie que não me pareceu congelado mas saiu pior que muitos dessa espécie. E nem o topping lhe disfarçou a secura. Valeu o serviço, simpático e eficiente, a conseguir despachar a contenda antes que a EMEL tivesse tempo de me bloquear a viatura. Consta que são implacáveis no Bairro Azul.

Mais tarde, quando voltei ao No Ponto Bistrô (haverá uma quota de bistrôs que Lisboa tem de cumprir?) já não se pagava parquímetro. Pude, por isso, jantar com mais calma. Pedi uma entrada, cascas de batata com molho no ponto. Teria gostado de as sentir mais estaladiças. Com mais casca e menos batata. O molho, uma maionese picante, estava, como prometido, no ponto. Nisso, o restaurante não engana.

O magret de pato com mel, ratatouille e puré de maçã foi a vítima que se seguiu. O pato, apesar de bem cozinhado, estava algo rijo e seco, a denunciar excessiva maturidade. E mal senti o mel. O melhor do prato foi, sem dúvida, o puré de maçã, fresquíssimo.

A outra especialidade que provei, os lombinhos de porco preto com crosta de mostarda e framboesa e risotto de manjericão, foram o melhor prato da noite. A carne veio rosada, sem estar mal passada, com o exterior estaladiço e um interior consistente. Um ótimo risotto, bem amanteigado e sem excesso de manjericão. Achei, contudo, que o excesso de framboesa abafava a mostarda, e tornava o resultado final ligeiramente desequilibrado. Ainda assim, o apontamento não mata a ideia. A boa ideia.

A torta de laranja final não estava especialmente má. Nem especialmente boa. Estava especialmente razoável. Não percebo, contudo, a insistência com o topping. Principalmente, misturar topping de frutos vermelhos numa torta de laranja. Sei que há quem olhe para o topping como o K-Y das sobremesas. Não é o meu caso.

Como diria o nosso presidente: a vida está difícil. E não é razoável pagar 20-25€ por pessoa num restaurante como o No Ponto Bistrô. A ementa tem boas ideias, o serviço é educado, mas o restaurante falha em pormenores básicos onde outros que cobram metade e que têm mais e melhor ambiente de sala não falham. Exige-se mais e melhor. Mesmo no deserto do Bairro Azul.

No Ponto
Morada: Rua Ramalho Ortigão, 41 (Bairro Azul). 
Telefone: 96 393 7500.
Horário: Segunda - Quinta 12h00-15h00/18h30-23h00; Sexta - Sábado 12h00-15h00/18h30-23h30

 

Texto publicado na Revista TimeOut/Lisboa (31 de janeiro de 2012)

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