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Das Flores

Das Flores

26.10.2011

Após insistentes tentativas em que foi brindado com o olhar, Jaime Abreu conseguiu ir à tasquinha mais concorrida do Chiado. E, apesar de não ter tatuagens nem ter deixado o seu carro de alta cilindrada em cima do passeio, sentiu-se em casa.

Quem, como eu, gosta muito de ir a restaurantes mas gosta pouco de pensar a que restaurantes vai com a antecedência necessária para reservar mesa, vê-se obrigado a lidar, frequentemente, com um dos grandes flagelos da restauração lisboeta. Falo do olhar. O olhar (em itálico porque é assim que as revistas falam das obras de arte) é um movimento de sobrancelhas complexo, que muitos chefes de sala dos restaurantes mais concorridos da cidade exibem quando são confrontados com alguém que quer almoçar ou jantar no seu estabelecimento, apesar de não ter feito reserva. O olhar consegue fazer com que um “Como? Não tem reserva? Vai ser difícil...” soe, quase sempre, a “Meu desgraçado, querias cá vir sem reserva? Desampara-me a loja e vai mas é bater a outra porta.”. No Das Flores deram-me uma espécie de olhar. Já explico. Ia desprevenido, tinham-me dito que era um restaurante simples, de família, sem peneiras e com boa comida. A juntar a isto, tratava-se de um almoço tardio a meio do mês, com subida de impostos iminente e a bolsa em mínimos históricos, cenário ideal para os adeptos da marmita no emprego. Ou assim pensava eu.

O restaurante estava cheio. E com um ambiente o mais heterogéneo possível: tipos tatuados que pareciam saídos de um episódio de Miami Ink lado a lado com o típico bon vivant barrigudo que estacionou o carro no passeio do restaurante e que por isso passa a refeição a “dar um olhinho que os animais andam aí”. Ainda assim, decidi arriscar. Falei com o patriarca (percebi mais tarde que o Das Flores é um restaurante familiar, de pai, mãe e filha), que me fez o olhar. Mas numa versão mais condescendente e carinhosa: senti que ele até queria que eu provasse os pastéis de bacalhau com arroz de tomate, mas não era mesmo possível. Só teria lugares a uma hora em que até um quadro superior da função pública teria vergonha de almoçar.

Voltei a tentar, sem reserva, nos dois dias seguintes. Chamem-lhe teimosia, eu chamo-lhe necessidade de confirmar o fenómeno. Confirmei-o e conformei-me. Depois, fiz a marcação da praxe. E não me arrependi.

 Como era a minha primeira vez no restaurante tentei perceber o que é que tinha mais saída entre os habitués. Primeiro mandamento de quem almoça no Das Flores: pedir um croquete de entrada. Não ficam nada a dever a outros bem mais consagrados. São fritos após o pedido, como devia ser sempre, e têm um recheio consistente e saboroso. Em suma, dão um excelente mote para o que se segue.

Quanto ao que se segue, depende do dia. Os pastéis de bacalhau da casa são afamados. Infelizmente, não o pude comprovar: no dia em que lá almocei não faziam parte do menu. Mas o arroz de tomate que os acompanha e que também vinha com os filetes de pescada que escolhi era excelente. Boa cor, a mostrar que não é de tomate só de nome, e alto teor de malandrice. Os filetes estavam à altura do acompanhamento. Não eram muito altos, mas tinham um bronzeado apetecível e faziam boas lascas. Na minha mesa comeu-se ainda um arroz de pato generoso e um bife à casa, uma boa posta de carne, com ovo e presunto. Tudo extremamente bem confeccionado. As sobremesas também não desiludiram: a mousse de chocolate era caseira e estava bem fresca. O toucinho do céu idem.

A acompanhar a refeição, também segui a tendência da casa e bebi uma limonada caseira servida num copo largo. Gostei. Fiquei, contudo, com pena de não ter explorado a garrafeira que me pareceu bem respeitável para um restaurante desta dimensão (20 a 25 lugares). Fica para a próxima. Uma refeição deste calibre a 10€ por pessoa faz-me ter a certeza que haverá uma próxima. Com ou sem olhares pelo meio.

Das Flores
Rua das Flores, 76 (Chiado).
Telefone: 213 428 828.
Horário: Segunda a Sábado das 12h00 às 16h00

Texto publicado na Revista TimeOut/Lisboa (28 de setembro de 2011)

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